
Aos 15 anos, já um "roqueiro" convicto e com as vestimentas que identificam o rótulo, eu já costumava ir para inúmeros shows, sozinho ou não, de bandas underground e de mais famosas que tocassem pela cidade. Sempre enxerguei na música-rock uma outra forma de "gnose" ou um encontro ecumênico mesmo, de pessoas que se identificam por um mesmo ideal e "oram" juntas. Porém, não é todo mundo que entende isso, religiosos ou não. Por isso, as minhas vestes e o meu "eu" incomodavam certos grupos que se diziam "de outro nível" daqui do meu bairro: playboys porradeiros.
O pior deles era um cidadão que morava aqui perto da minha rua. Sempre que eu saía de casa trajando minhas vestes roquenrrôulicas de praxe, ele me dirigia palavras de puro racismo e preconceito, amparado pela corja de pseudoplayboys (= pobres) que o amparava caso eu resolvesse perder a paciência e partir para cima.
- Puta merda, olha a roupa do crioulo. Tá achando que é branco, metaleiro?
- Aí, negão, seu cabelo liso balança também? HAHAHAHA! Comédia!
- Valeu, sujo! Vai pegar geral com essa roupa e essa cara, hein?
- Puta merda, macaco só faz macacada mesmo...
Como nunca respondi à altura por pura preguiça de criar quiprocó enquanto estava de saída (além de perceber que o que ele queria era, justamente, chamar a atenção), nunca tivemos nenhum embate verbal ou físico. Mesmo quando ele estava sozinho, ele tentava me provocar de alguma forma e ia cada vez mais fundo, querendo que eu partisse logo para a mão, como é comum desta laia playboyzante. Esta situação se prolongou por cerca de 3 ou 4 meses e em fins de semana esporádicos.
Então, chegando o final do ano, fui convidado para ir a um encontro cristão de grupos jovens daqui do bairro. Lá tinha muita gente que era da igreja e que também não era, já que a finalidade dos encontros era justamente apresentar religião para jovens que não gostavam de "religião". Após a hora da oração em conjunto e das diversas demonstrações de partilha, começou o famoso abraço de paz, comum para integrar e desejar felicidade às pessoas novas. Então, quando começo a circular pelo salão para falar com todos, surge o inesperado.
O indivíduo que eu odiava e que me "desprezava" estava logo ali, à minha frente, com os olhos cheios de lágrimas, apertando e abraçando as pessoas com a timidez típica de quem não sabe lidar com sentimentos ou demonstrações tão explícitas de carinho. Via-se que estava fora da sua zona de conforto, mas que estava naturalmente comovido pelo encontro e pela situação. Não aguentei ver ele pagando de pessoa "do bem" e resolvi chegar perto, com passos largos e pesados, olhando diretamente para ele.
Logo que ele me viu, seus olhos ficaram parados, só me fitando chegar. A sua expressão foi mudando vagarosamente, tomando um misto de susto e apreensão. Cheguei e fiquei de frente para ele. Seus amigos estavam ao seu lado e, ele, paralisado, mal respirava. Foi então que saquei minha arma.
Ele não teve tempo nem de balbuciar sequer uma palavra. Antes que ele movesse um músculo, lhe atirei um aperto de mão bem firme, olhando em seus olhos ainda trêmulos. Depois, cheguei perto e falei em alto e bom som, para que todos pudessem ouvir.
- Paz de Cristo, IRMÃO.
Ele, com os lábios trêmulos, me respondeu, gaguejando.
- Paz de Cristo...irmão.
Depois desse dia, nunca mais o vi.